Thursday, December 16, 2010

II faut que mon coeur y mette le nom de la violette

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Sur les berges de la Seine
Un midi de jeunes gens
Michel avec Madeleine
Pierre avec Jeanne et Germaine
Qui se promène avec Jean
II faut que mon coeur y mette
Le nom de la violette

Si le ciel est plein d'oiseaux
Qu'est-ce que cela peut faire
Le feu qui brûle en enfer
Les noyés dans les roseaux
Les cailloux au fond des eaux
II faut que mon coeur y mette
Le nom de la violette

Où allez où allez-vous
Hirondelles disent-ils
Est-ce enfin le mois d'avril
Doux parfum de n'importe où
Le vent ne parle qu'aux fous
II faut que mon coeur y mette
Le nom de la violette

Suis-je encore citoyen
De ce chantant paysage
Où c'est l'oublieux usage
De ne plus penser à rien
Qu'au vert bonheur mitoyen
Il faut que mon cœur y mette
Le nom de la violette

Je n'en ai plus les moyens

Louis Aragon, Le Cri du Butor (fragment) «Le Nouveau Crève-Coeur»

Wednesday, December 15, 2010

Le soleil prouvé par l’ombre enjambera les décombres


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Maintenant que la jeunesse
S’éteint au carreau bleui
Maintenant que la jeunesse
Machinale m’a trahi
Maintenant que la jeunesse
Tu t’en souviens, souviens-t’en
Maintenant que la jeunesse
Chante à d’autres le printemps
Maintenant que la jeunesse
Détourne ses yeux lilas
Maintenant que la jeunesse
N’est plus ici n’est plus là
Maintenant que la jeunesse
Sur d’autres chemins légers
Maintenant que la jeunesse
Suit un nuage étranger
Maintenant que la jeunesse
A fui voleur généreux
Me laissant mon droit d’aînesse
Et l’argent de mes cheveux
Il fait beau à n’y pas croire
Il fait beau comme jamais
Quel temps quel temps sans mémoire
On ne sait plus comment voir
Ni se lever ni s’asseoir
Il fait beau comme jamais
C’est un temps contre nature
Comme le ciel des peintures
Comme l’oubli des tortures
Il fait beau comme jamais
Frais comme l’eau sous la rame
Un temps fort comme une femme
Un temps à damner son âme
Il fait beau comme jamais
Un temps à rire et courir
Un temps à ne pas mourir
Un temps à craindre le pire
Il fait beau comme jamais
Tant pis pour l’homme au sang sombre
Le soleil prouvé par l’ombre
Enjambera les décombres
Il fait beau comme jamais

Louis Aragon, Le Cri du Butor (fragment) «Le Nouveau Crève-Coeur»

Wednesday, December 08, 2010

Les copains d'abord

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Les copains d'abord

Non ce n'était pas le radeau
De la méduse ce bateau
Qu'on se le dise au fond des ports
Dise au fond des ports
Il naviguait en père peinard
Sur la grande mare des canards
Et s'appelait "Les copains d'abord"
Les copains d'abord.

Ses fluctuat nec mergitur
C'était pas de la littérature,
N'en déplaise aux jeteurs de sort,
Aux jeteurs de sort,
Son capitaine et ses matelots
N'étaient pas des enfants de salauds,
Mais des amis franco de port,
Des copains d'abord.

C'étaient pas des amis de luxe,
Des petits Castor et Pollux,
Des gens de Sodome et Gomorrhe,
Sodome et Gomorrhe,
C'étaient pas des amis choisis
Par Montaigne et La Boetie,
Sur le ventre ils se tapaient fort,
Les copains d'abord.

C'étaient pas des anges non plus,
L'Evangile, ils l'avaient pas lu,
Mais ils s'aimaient toutes voiles dehors,
Toutes voiles dehors,
Jean, Pierre, Paul et compagnie,
C'était leur seule litanie
Leur Credo, leur Confitéor,
Aux copains d'abord.

Au moindre coup de Trafalgar,
C'est l'amitié qui prenait le quart,
C'est elle qui leur montrait le nord,
Leur montrait le nord.
Et quand ils étaient en détresse,
Que leur bras lançaient des S.O.S.,
On aurait dit les sémaphores,
Les copains d'abord.

Au rendez-vous des bons copains,
Y'avait pas souvent de lapins,
Quand l'un d'entre eux manquait a bord,
C'est qu'il était mort.
Oui, mais jamais, au grand jamais,
Son trou dans l'eau ne se refermait,
Cent ans après, coquin de sort!
Il manquait encore.

Des bateaux j'en ai pris beaucoup,
Mais le seul qui ait tenu le coup,
Qui n'ai jamais viré de bord,
Mais viré de bord,
Naviguait en père peinard
Sur la grand-mare des canards,
Et s'appelait les copains d'abord
Les copains d'abord.

Des bateaux j'en ai pris beaucoup,
Mais le seul qui ait tenu le coup,
Qui n'ai jamais viré de bord,
Mais viré de bord,
Naviguait en père peinard
Sur la grand-mare des canards,
Et s'appelait les copains d'abord
Les copains d'abord.

(Georges Brassens)

Vidéo:
Les copains d'abord (Georges Brassens)

ANALYSE BRASSENS: Les copains d'abord

Sunday, December 05, 2010

Bento de Jesus Caraça e a luta contra a guerra


Há quase setenta anos, precisamente no dia 11 de Novembro de 1932, numa altura em que se desenvolviam já os contornos do que viria a ser a segunda guerra mundial, um jovem professor universitário, escreveu um artigo no semanário Liberdade. Esse jovem professor, de 31 anos, chamava-se Bento de Jesus Caraça, e o artigo tinha por título A luta contra a guerra.
No contexto de séria crise internacional que actualmente se vive, parece-me útil e também necessário, nesta homenagem a Bento de Jesus Caraça recordar as suas exactas palavras que, com o passar do tempo, não perderam actualidade. Talvez seja preciso substituir as datas, uma sigla, e pouco mais. Tudo o resto se mantém vivo como se tivesse sido escrito hoje.
Escrevia, então, Bento de Jesus Caraça, no seu artigo A luta contra a guerra:

Um semanário francês publicava, há alguns meses, um desenho que, em síntese feliz, ilustrava o panorama político de então: na clínica do Doutor S. D. N. um doente – o mundo – é examinado pelo médico; este olha com terror para a língua do paciente, uma enorme língua entumescida sobre a qual se vê um canhão, e aconselha os comparsas da clínica que se comprimem à porta – não se aproximem! a língua está carregada!
De então para cá, a situação não se tem alterado nas suas linhas fundamentais, antes estas se têm demarcado com maior intensidade – o doente continua padecendo do mesmo mal, dia a dia agravado, e da boca do médico não mais têm saído do que débeis conselhos gaguejados: cuidado! a língua está carregada! – confissão clara da sua impotência para curar.
Catorze anos após o termo desse acesso de loucura que precipitou a humanidade num abismo de horror, encontramo-nos novamente na iminência de um acesso maior, estamos à beira de um abismo mais fundo. E para esse abismo rolaremos todos se, num esforço colectivo, não nos unirmos para dizer – NÃO! mas dizer – NÃO! com uma vontade firme, aquela vontade do homem forte e consciente que de antemão prevê as consequências e de antemão as aceita em toda a sua extensão e em toda a sua inteireza.
O tomar essa atitude exige, antes de mais nada, um sério trabalho interior, um trabalho de revisão de ideias e de valores morais. E não é sem esforço e sem sofrimento que esse árduo trabalho pode ser levado ao fim; pelo caminho, e por efeito de uma análise impiedosa de todos os factores do problema, aparecerão como devendo ser abandonadas muitas ilusões, muitas ideias que até aí pareceriam fazer parte integrante do nosso ser moral. Pois bem! Que haja a coragem de as abandonar e se ao cabo aparecermos outros homens – tanto melhor!
Mas é só depois de conseguida essa harmonia interior sem a qual é ilusória e inconsistente toda a tentativa de acção, que pode ser útil e profícua a projecção da vontade sobre o meio ambiente. Actuar, sim, mas com um plano; nada de esgrimir contra moinhos; alcançar os pontos de enraizamento do mal; abandonar o trapo vermelho para atingir a mão que o manobra.
Só assim a multidão dos pacifistas deixará de ser, na frase justa de Einstein, um rebanho de carneiros lamurientos num redil. E só assim esse rebanho deixará em breve de fornecer abundante carne para os canhões, esses canhões de cujo fabrico e venda as organizações capitalistas internacionais sabem tirar, com que mestria!, os grossos lucros que lhes avolumam a bolsa.
A luta contra a guerra comporta muitos e variados problemas de ordem prática; é impossível, num artigo de jornal, fazer deles sequer uma enumeração, mesmo incompleta.
Quero apenas referir-me, por agora, a um aspecto da questão – o papel que nessa luta desempenham, ou virão a desempenhar, os intelectuais.
Não é brilhante, está mesmo extremamente longe disso, a sua folha de serviços nesse particular. O exemplo da última guerra é, a esse respeito, esmagador. Salvo um pequeno número de espíritos livres e independentes – Romain Rolland acima de todos – o seu fracasso foi completo. Em vez de lançarem na balança todo o peso do seu prestígio para procurarem evitar o desencadeamento da catástrofe e pôr ordem num caos de loucura, usaram desse mesmo prestígio para activar a fogueira, para aumentar a desordem. Onde deviam elevar-se, aviltaram-se, ao desempenho de uma missão nobre e humana preferiram a traição.
Está, ao menos, a situação mudada no presente? Vêem-se, porventura, sinais claros e precisos de um propósito de resgatar um passado escuro? A verdade deve dizer-se, sempre e acima de tudo, e a verdade é – não! Existem, sem dúvida, núcleos apreciáveis de homens firmes, de “homens de boa vontade” que, na luta contra a guerra, põem o melhor da sua inteligência e da sua actividade – o recente congresso de Amsterdam é disso uma prova bem patente – mas, infelizmente, a maioria, a grande maioria dos intelectuais apresta-se para uma nova renegação do espírito. Se uma guerra estalar, e nunca estivemos tão perto dela, veremos de novo surgir, por esse mundo, milhares de fáceis heróis de escrevaninha, a bolsar as mesmas torrentes de mentiras que levem à frente da batalha – os outros… e lhes assegurem a eles cómodas situações à retaguarda.
O mundo está, como estava em 1914, governado por homens inferiores, caricaturas de homens, e o que eles governam não é uma sociedade humana – é uma caricatura de sociedade humana.
E será assim, enquanto homens novos não tomarem a direcção do mundo para fazer dele uma sociedade de homens livres.
Que todos se apercebam bem disto – no momento que passa, a trincheira da luta pela Humanidade é a trincheira da luta contra a guerra. É a hora de falar claro e de cada um escolher a sua posição.
A minha está escolhida há muito tempo.

Assim terminava o artigo de Bento de Jesus Caraça.
Devo dizer que tenho sempre um embaraço quando intervenho em homenagens a Bento de Jesus Caraça. Por um lado, não tenho os dons oratórios e conhecimentos que estejam à altura de uma das nossas mais importantes figuras do século XX. Mas, por outro lado, há uma enorme dívida de gratidão que tenho, que todos nós temos, para com o professor, para com o homem de ciência, de cultura, e de acção, que ele foi. E é ele, Bento de Jesus Caraça, que da já distante primeira metade do século passado, nos impõe o dever de falar, porque temos que lançar na balança todo o peso do nosso prestígio (por pequeno que seja o de cada um) para procurar evitar o desencadeamento da catástrofe e pôr ordem num caos de loucura.
Parece que a situação internacional mudou radicalmente de há três meses para cá. O futuro o dirá, mas, provavelmente, mudou mesmo. Todavia, sem querer minimizar a profunda gravidade do sucedido em 11 de Setembro, há que assinalar que a História não começou nessa data.
As próprias autoridades do país vítima dos atentados do dia 11 de Setembro último classificaram-nos como actos de guerra. Não me sinto capaz de discutir tal designação. Lembro apenas que, no decurso da segunda guerra mundial foram lançadas, pelos Estados Unidos, bombas atómicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki que destruiram bens e pessoas em quantidade muito maior do que agora, constituindo um precedente que, felizmente, até ao presente momento, não teve sequência. Este foi apenas um precedente extremo do ocorrido há três meses. Muitos outros exemplos se poderiam dar.
Mas há, concerteza, dois aspectos novos nos atentados de 11 de Setembro. Por um lado, a envolvente técnica e a espectacularidade radicalmente inéditas. Por outro lado, o facto de terem atingido cidades do país mais poderoso do planeta, quando, até aí, só tinham sofrido bombardeamentos cidades de países fracos ou militarmente muito debilitados: cidades como Bagdad, Belgrado ou a capital do Panamá, para falar, apenas, em alguns casos mais recentes.
Esses dois aspectos não justificam, em minha opinião, que se arraste todo o mundo para guerras de consequências totalmente imprevisíveis.
O pretexto que tem servido de justificação para estas guerras tem sido o desmantelamento do terrorismo. Ora, o terrorismo dos pobres ou que, por qualquer via, tem origem no terceiro mundo é, no essencial, um subproduto da exploração, da miséria que ela acarreta, da ingerência económica e militar e, fundamentalmente, da guerra. Fazer uma guerra global dita para combater o terrorismo é, para todos os efeitos, dar sequência a um ciclo infernal que conduzirá, inevitavelmente, a mais perdas de vidas humanas e bens materiais. A guerra não é, portanto, uma solução para acabar com o terrorismo mas é, pelo contrário, uma das suas raízes.
As guerras actuais, nomeadamente esta que tem sido conduzida contra o povo do Afeganistão, são, em si mesmas, formas de terrorismo. Com a agravante de serem conduzidas por países ricos, poderosos técnica e militarmente, esmagadoramente poderosos, países que, por isso mesmo, têm os meios para resolver os problemas pela via pacífica.
O poderio militar que bombardeia sem possibilidades de defesa tem sido de tal maneira avassalador que as populações aterrorizadas, verdadeiramente aterrorizadas, são obrigadas a fugir para campos de refugiados, muito longe dos locais onde viviam. E acontece que, mesmo antes de dispararem um único tiro, estes ataques, ditos cirúrgicos, já mataram muito mais gente do que aquela, também inocente, que morreu em 11 de Setembro deste ano. É que, muitos desses fugitivos acabam por morrer de frio, fome e doenças nos campos de refugiados. Não é isto uma forma suprema de terrorismo?
Há muitas coisas estranhas em toda esta actividade bélica, que, aliás, estão documentadas na imprensa, em livros, na internet, em vídeo. Todos nós temos o dever de procurar a informação para, tal como dizia Bento de Jesus Caraça, alcançar os pontos de enraizamento do mal e abandonar o trapo vermelho para atingir a mão que o manobra.
A este propósito, assinalo dois factos que toda a gente conhece mas que acabam sempre perdidos nas montanhas de informações com que, também nós, somos bombardeados.
Primeiro facto. Os aliados de ontem (melhor seria chamar-lhes cúmplices) são os inimigos de hoje, mas os povos é que sofrem as consequências. O que está a suceder agora, sucedeu já, por exemplo, no Panamá, onde bairros inteiros foram arrasados a pretexto de um ajuste de contas entre antigos comparsas. Isto deve servir de lição no que diz respeito à escolha dos aliados. É que, quem se mete com criminosos e assassinos, acaba manchado de sangue e, o que é mais grave, envolve no processo triturador pessoas completamente inocentes.
Segundo facto. Bloqueiam-se, agora, contas bancárias que se dizem financiar o terrorismo. Mas nada se diz ou faz a propósito dos capitais que circulam e que estão envolvidos com o crime organizado, o tráfico de droga, o tráfico de armas, a lavagem de dinheiro. Os paraísos fiscais continuam intocáveis contra a vontade das populações.
A verdade é que o que está por detrás de tudo isto são os grandes interesses geoestratégicos com particular relevância para aqueles que se prendem com o petróleo. É necessário pôr um travão a este colonialismo do século XXI, afinal tão parecido nas intenções com o seu avô do século XIX, mas diferente nos meios técnicos militares, muito mais poderosos agora.
É sempre tempo de dizer – Basta! E creio que essa é uma forma de, hoje, prestarmos homenagem a Bento de Jesus Caraça.

Jorge Rezende. Lisboa, 11 de Dezembro de 2001
[Intervenção feita no INSTITUTO ROCHA CABRAL a convite do saudoso Professor Ruy Pinto]

Monday, November 29, 2010

Malhas que o Império tece!...


O Menino da Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

(Fernando Pessoa)

Sunday, November 21, 2010

294 «indivíduos»


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Homenagem à Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos no seu 40° Aniversário
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No âmbito da Homenagem à Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, nos 40 anos da sua constituição, alguns elementos que integraram também a Comissão Regional de Socorro aos Presos Políticos decidiram promover, no PORTO, um Almoço/Convívio, no próximo dia l de Dezembro de 2010, com o objectivo de juntar, nesta Confraternização, membros da ÇRSPP e outros Amigos e lutadores antifascistas.
É com o maior gosto que lhe endereçamos Convite, desejando que lhe seja possível estar presente.
Porto, Novembro de 2010

AMÂNDIO SECCA * ANTÓNIO MACEDO VARELA * CÉSAR PRÍNCIPE * FREI BERNARDO DOMINGUES * JOSÉ RODRIGUES * MANUEL CASTRO MONTEIRO * MARIA EUNÍCIA SALGADINHO * MARIA JOSÉ RIBEIRO * MARTA CRISTINA ARAÚJO
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Vídeo:
Era um redondo vocábulo
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(Nota: o logotipo da CNSPP é de )

Friday, November 12, 2010

O que há para além das imagens



O que há para além das imagens

Quando preparava a Fotobiografia de António Aniceto Monteiro interessei-me, como era lógico, por obter documentos relativos a Aureliano de Mira Fernandes. Assim, fiz o que era meu hábito: utilizei a lista telefónica, então sob a forma electrónica de acesso livre pela internet, para saber a morada dos familiares. No dia 28 de Fevereiro de 2006, uma 3ª feira, com uma lista de mais de uma dezena de nomes e números, fui fazendo telefonemas até encontrar alguém da família que me indicou a filha mais velha de Mira Fernandes – Maria Adelaide Mira Fernandes – que morava na Rua Luís de Camões, 65, 2º D, em Algés. Falei nesse mesmo dia com ela por telefone e disse-lhe quem era e o que pretendia.
No domingo seguinte, dia 5 de Março, de manhã, quando há menos trânsito, fui lá a casa, de surpresa. Para meu espanto, a senhora, já com cerca de 95 anos, abriu-me a porta sem qualquer problema ou desconfiança, coisa que nem sempre sucedeu com gente muito mais nova. Conversámos e mostrou-me as fotografias que possuía – únicas recordações que tinha do pai, segundo disse. Estava numa situação difícil porque, além de ter uma prótese numa anca, tinha o filho no hospital há dois anos depois de ter sofrido um AVC, tendo ela que se revezar com a nora, todos os dias, para o apoiar. Disse-lhe então que lhe telefonaria mais tarde para ir lá digitalizar as fotografias porque tinha que combinar primeiro com quem me iria ajudar a transportar o computador e o digitalizador. Podia ter tentado pedir-lhe as fotografias emprestadas, para as devolver no dia seguinte, depois de digitalizadas, mas preferi a penosa alternativa, para não lhe dar a ideia que pudesse apropriar-me delas ou, eventualmente, perdê-las. Não seria novidade, visto que foi isso que sucedeu, segundo me disseram, na Academia das Ciências, com as que foram a caminho das tipografias – desapareceram. Também desejava que não tivesse qualquer receio de me mostrar todos os documentos que possuía – mesmo que fosse uma carta de Einstein eu não a retiraria daquela casa.
No dia 15 acordámos em que iria no dia seguinte, uma 5ª feira, de manhã. Levámos como presentes um vaso com begónias e uma fotocópia de uma carta de Mira Fernandes para Ruy Luís Gomes do final de 1934 – «...sou Sôgro, ha um mês! Sôgro! Gosto muito do meu Genro, gostei muito que a minha Filha se casasse, mas entendo que a palavra fatal só devia ter feminino!». E agora, setenta anos passados, ali estava, à minha frente, aquela que tinha «provocado» esta «perturbação» no pai... Enquanto fazia o meu trabalho, conversámos...
Há muitos anos aposentada, Maria Adelaide tinha sido funcionária numa repartição. No tempo dela não era costume as raparigas serem incentivadas a tirar cursos superiores. Mas era uma republicana como o pai. Em mais nova devia ter sido uma pessoa alegre. E era ousada como se pode ver pelo seguinte episódio que me contou. Em 10 de Novembro de 1961, Hermínio da Palma Inácio e outros desviaram um avião da TAP e sobrevoaram Lisboa lançando milhares de panfletos. Maria Adelaide apanhou vários na rua, escondeu-os na roupa e distribuiu-os na repartição.
Contou-me que o pai tinha participado na revolução de 5 de Outubro de 1910 e que chegara a ser convidado para o governo republicano, tendo recusado.
Mira Fernandes era amigo de José Manuel Sarmento de Beires, o aviador que realizou em 1924 o raid aéreo Lisboa-Macau conjuntamente com Brito Pais e Manuel Gouveia, e era irmão de Rodrigo Sarmento de Beires que viria a ser professor catedrático de matemática na Universidade do Porto. Um dia quis convencer Mira Fernandes, sem sucesso, a deixá-lo levar as duas filhas adolescentes a dar uma volta de avião... Este episódio aconteceu antes de 1928, porque nessa data este Sarmento de Beires, militar e aviador, que pertencia ao Partido Republicano, participou numa revolta militar e acabou por passar à clandestinidade. Envolveu-se na guerrilha e foi preso quatro anos depois, tendo sido visitado na cadeia por Ruy Luís Gomes. Mais tarde, no Brasil, no exílio, viria a encontrar António Aniceto Monteiro. Anos depois, o irmão do aviador, Rodrigo, que politicamente estava muito afastado de José Manuel, ainda assim apoiou Ruy Luís Gomes durante as perseguições que o fascismo lhe moveu, como é sabido. Contou-me o Eng. Manuel Beires que, talvez depois de 1958, António Luiz Gomes, já muito idoso, foi, a pé, da sua casa, na Rua da Restauração, à Arca d’Água, agradecer a Rodrigo Sarmento de Beires essa solidariedade prestada ao filho. Quando Sarmento de Beires lhe propôs chamar um táxi para o regresso, o velho político dos primórdios da República agradeceu mas disse que preferia regressar como tinha ido: a pé...
Conto isto para mostrar não só a «fibra» destas pessoas mas também que todos eles se conheciam muito bem, eram amigos, solidários, e que tinham interesses e actividades comuns que iam da Ciência à Política. Mira Fernandes conhecia perfeitamente Ruy Luís Gomes e teve grande influência tanto nele como em Bento de Jesus Caraça, de quem foi o padrinho do primeiro casamento.
Mira Fernandes, tal como Ruy Luís Gomes, mantinha correspondência científica com personalidades estrangeiras, como Levi Civita, caso muito raro na época. Melhor do que descrito por mim, o relacionamento científico entre Mira Fernandes, Levi Civita, Ruy Luís Gomes, e outros, está registado em vários documentos como, por exemplo, o artigo de José Morgado «O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português».
Para meu espanto e meu desapontamento, Maria Adelaide disse-me que tinha destruído todos os papéis do pai que possuía porque não queria que um dia pudessem servir «para embrulhar sabão» nalguma loja. Mas antes de tal destruição ter acontecido já alguém tinha feito «desaparecer» uma carta de Albert Einstein...
Recordo Maria Adelaide como uma mulher inteligente, afável e de uma infelicidade serena. Não a voltei a ver. Depois de lá ter ido a casa, mandei fazer umas magníficas reproduções em papel das fotografias do pai e enviei-lhas como agradecimento. Ficou muito sensibilizada, distribuiu-as pela família, telefonou frequentemente. Foi assim que conheci a irmã, muito mais nova, Maria Margarida, que me confirmou não haver mais documentos relativos a Aureliano de Mira Fernandes. Ficou-me a impressão que ele, além do seu amor paterno, mantinha com as filhas uma relação de muita proximidade e até de cumplicidade.

Jorge Rezende, Junho de 2009

Fotografias digitalizadas em casa de Adelaide Mira Fernandes:
Aureliano de Mira Fernandes (1)
Esta fotografia foi tirada em Coimbra no fotógrafo A G Tinoco Photo, Largo das Ameias, 4, Coimbra. Nas costas está escrito (datas?) “909-910, 910-911”. Como em 1909 Mira Fernandes conseguiu o grau de Bacharel, e em 1910 o de licenciado, esta fotografia pode ter sido tirada ou em 1909 ou em 1910 para assinalar um desses acontecimentos. Ladeiam-no dois gémeos que deviam ser amigos de Mira Fernandes e também estudantes em Coimbra.
Aureliano de Mira Fernandes (2)
Esta fotografia foi tirada em Coimbra no fotógrafo A G Tinoco Photo, Largo das Ameias, 4, Coimbra. Nas costas vem «À minha querida Filha Maria Adelaide [assinatura]”. Tem escrita a data “1909”. Como em 1909 Mira Fernandes conseguiu o grau de Bacharel, e em 1910 o de licenciado, esta pode ter sido tirada em 1909 ou em 1910 para assinalar um desses acontecimentos.
Aureliano de Mira Fernandes (3)
A fotografia é do fotógrafo Vidal Fonseca, de Lisboa. Nas costas vem «À minha querida filha Maria Adelaide, 1911-1922 [assinatura]». Posteriormente acrescenta a dedicatória «Ao Mário com um grande abraço [assinatura]». «Mário» era o genro. Esta fotografia pode ser de 1922 e pode ser uma espécie de fotografia oficial de Professor do IST.
Aureliano de Mira Fernandes (4)
Esta fotografia é do fotógrafo Furtado & Reis, Rua Santa Justa, 107, Lisboa, e tem o número 49722. Nas costas tem a dedicatória «À minha querida Filha Maria Adelaide, e ao meu genro Mario Lima [tem uma data (?) que pode ser 1935] [assinatura]». A filha, Maria Adelaide, casou-se em 5 de Dezembro de 1934. Pode ser mais uma fotografia oficial de Professor do IST.
Aureliano de Mira Fernandes (5)
Mira Fernandes em frente ao quadro dando uma aula. Esta fotografia nada tem escrito nas costas.
Esta fotografia tem, nas costas, o carimbo «Reportagens fotográficas STEP, Rua dos Anjos, 26, 3º, Lisboa, Telef. 46257, Registo nº 23520» e a seguinte anotação «Almoço de Homenagem no IST em 16/6/54». Nessa data, fazia Mira Fernandes setenta anos, tratando-se portanto de uma homenagem pelo seu jubileu.



[Capa do Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática, de homenagem a Mira Fernandes, onde foi publicado o texto O que há para além das imagens]

Friday, October 29, 2010

Matemática e Arte no Fórum Eugénio de Almeida em Évora

Tower of Babel 1928 woodcut

Day and Night 1938 woodcut in black and grey, printed from 2 blocks

Drawing Hands 1948 Lithograph

Images from the Gallery of The Official M.C. Escher Website

Matemática e Arte no Fórum Eugénio de Almeida
Exposição inédita de obras de M.C. Escher

A Fundação Eugénio de Almeida (FEA) expõe “A magia de M.C. Escher”, uma mostra que reúne cerca de 50 trabalhos do artista holandês que brincava com a arquitectura, a perspectiva e os espaços impossíveis, naquela que é a primeira mostra de trabalhos de M.C. Escher em Portugal.
Famoso pelas estruturas impossíveis, representadas no famoso quadro Relativity onde escadas sobem e descem em todas as direcções, e por desafiar as leis da perspectiva através da exploração do espaço tridimensional, a obra de M.C. Escher traduz uma observação afiada do mundo e a expressão da sua própria fantasia.
Tower of Babel, Day and Night e Drawing Hands são algumas das obras que estarão patentes no Fórum Eugénio de Almeida até 30 de Janeiro de 2011.

Horário: 09h30 às 19h00
Local: Fórum Eugénio de Almeida

Rua Vasco da Gama, 13, Évora
Informações: 266 748 350
Preço: 1€

[Esta é a informação oficial sobre a exposição]

Sítio da Fundação Eugénio de Almeida

Saturday, October 23, 2010

Wednesday, August 18, 2010

Se equivocó la paloma

García Lorca, Mª Teresa León y Rafael Alberti en Madrid (1934)
.
«Sea como fuere, el poeta [Lorca] fue llevado al pueblo de Víznar junto con otros detenidos. Después de pasar la noche en una cárcel improvisada, lo trasladaron en un camión hasta un lugar en la carretera entre Víznar y Alfacar, donde lo fusilaron antes del amanecer.
Aunque no se ha podido fijar con certeza la fecha de su muerte, Gibson supone que ocurrió en la madrugada del 18 de agosto de 1936. En documentos oficiales expedidos en Granada puede leerse que Federico García Lorca “falleció en el mes de agosto de 1936 a consecuencia de heridas producidas por hecho de guerra”.»
[La muerte - Fundación Federico García Lorca]
.


Rafael Alberti: Se Equivocó la Paloma
Joan Manuel Serrat: La Paloma
Sergio Endrigo: La Colomba

Monday, August 16, 2010

La tarde del 16 de agosto de 1936, Federico García Lorca fue detenido en casa de los Rosales por Ramón Ruiz Alonso


«El 17 de julio estalló en Marruecos la sublevación militar contra la República, y desde Canarias, Francisco Franco proclamó el Alzamiento Nacional. Para el día 20, el centro de Granada estaba en manos de las fuerzas falangistas. Durante la revuelta, el cuñado de Federico, Manuel Fernández-Montesinos, marido de su hermana Concha y alcalde de la ciudad, fue arrestado en su despacho del Ayuntamiento; al cabo de un mes fue fusilado a mano de los rebeldes.
Dándose cuenta de que sería peligroso quedarse en la Huerta de San Vicente, Federico sopesó, con su familia, varias alternativas: intentar llegar a la zona republicana; instalarse en casa de su amigo Manuel de Falla, cuyo renombre internacional parecía ofrecerle protección, o alojarse en casa de la familia Rosales, en el centro de la ciudad. Esta última opción fue la que escogió Lorca, pues tenía una relación de confianza con dos de los hermanos del poeta Luis Rosales, que eran destacados falangistas.
La tarde del 16 de agosto de 1936, Lorca fue detenido en casa de los Rosales por Ramón Ruiz Alonso, un ex diputado de la CEDA, derechista fanático, que sentía un profundo odio por Fernando de los Ríos y por el poeta mismo. Según Ian Gibson, biógrafo de Federico, se sabe que esta detención “fue una operación de envergadura. Se rodeó de guardias y policías la manzana donde estaba ubicada la casa de los Rosales, y hasta se apostaron hombres armados en los tejados colindantes para impedir que por aquella vía tan inverosímil pudiera escaparse la víctima [Federico García Lorca, vol. II, p. 469].
Lorca fue trasladado al Gobierno Civil de Granada, donde quedó bajo la custodia del gobernador, el comandante José Valdés Guzmán. Entre los cargos contra el poeta –según una supuesta denuncia, hoy perdida y firmada por Ruiz Alonso– figuraban el “ser espía de los rusos, estar en contacto con éstos por radio, haber sido secretario de Fernando de los Ríos y ser homosexual [Federico García Lorca, vol. II, p. 476]. Fueron infructuosos los varios intentos de salvar al poeta por parte de los Rosales y, más tarde, por Manuel de Falla. Según Gibson, “hay indicios de que, antes de dar la orden de matar a Lorca, Valdés se puso en contacto con el general Queipo de Llano, jefe supremo de los sublevados de Andalucía”.
Sea como fuere, el poeta fue llevado al pueblo de Víznar junto con otros detenidos. Después de pasar la noche en una cárcel improvisada, lo trasladaron en un camión hasta un lugar en la carretera entre Víznar y Alfacar, donde lo fusilaron antes del amanecer.»
[La muerte - Fundación Federico García Lorca]
.

Wednesday, July 28, 2010

... yo aún estoy en el camino...

Palabras para Julia

Tú no puedes volver atrás
porque la vida ya te empuja
como un aullido interminable.

Hija mía, es mejor vivir
con la alegría de los hombres,
que llorar ante el muro ciego.

Te sentirás acorralada,
te sentirás perdida o sola,
tal vez querrás no haber nacido.

Yo sé muy bien que te dirán
que la vida no tiene objeto,
que es un asunto desgraciado.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti como ahora pienso.

Un hombre sólo, una mujer
así, tomados de uno en uno,
son como polvo, no son nada.

Pero yo cuando te hablo a ti,
cuando te escribo estas palabras,
pienso también en otros hombres.

Tu destino está en los demás,
tu futuro es tu propia vida,
tu dignidad es la de todos.

Otros esperan que resistas,
que les ayude tu alegría,
tu canción entre sus canciones.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti como ahora pienso.

Nunca te entregues ni te apartes
junto al camino, nunca digas
no puedo más y aquí me quedo.

La vida es bella, tú verás
como a pesar de los pesares,
tendrás amor, tendrás amigos.

Por lo demás no hay elección
y este mundo tal como es
será todo tu patrimonio.

Perdóname, no sé decirte
nada más, pero tú comprende
que yo aún estoy en el camino.

Y siempre, siempre, acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti como ahora pienso.

(José Agustín Goytisolo)

Vídeos:
Paco Ibañez: Palabras para Julia
Palabras para Julia (Kamchatka)
«Harry (voz en off) : La última vez que lo vi, mi papá me habló de Kamchatka. Y esa vez entendí.... Y cada vez que jugué, papá estaba conmigo. Y cuando el partido vino malo, me quedé con él. Y sobreviví porque Kamchatka es el lugar donde resistir...»

Friday, July 23, 2010

Amália (23 de Julho de 1920)

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Cantiga Sua Partindo-se

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

(Joam Roiz del Castel Blanco, Alain Oulman)

Vídeo:
Partindo-se (Amália Rodrigues)

Tuesday, July 20, 2010

Yo escogí el difícil camino...

«Yo escogí el difícil camino de una responsabilidad compartida y, antes que reiterar la adoración hacia el individuo como sol central del sistema, preferí entregar con humildad mi servicio a un considerable ejército que a trechos puede equivocarse, pero que camina sin descanso y avanza, cada día enfrentándose tanto a los anacrónicos recalcitrantes como a los infatuados impacientes. Porque creo que mis deberes de poeta no sólo me indicaban la fraternidad con la rosa y la simetría, con el exaltado amor y con la nostalgia infinita, sino también con las ásperas tareas humanas que incorporé a mi poesía.
Hace hoy cien años exactos, un pobre y espléndido poeta, el más atroz de los desesperados, escribió esta profecía: "A l'aurore, armés d'une ardente patience, nous entrerons aux splendides Villes". "Al amanecer, armados de una ardiente paciencia, entraremos a las espléndidas ciudades".
Yo creo en esa profecía de Rimbaud, el Vidente. Yo vengo de una oscura provincia, de un país separado de todos los otros por la tajante geografía. Fui el más abandonado de los poetas y mi poesía fue regional, dolorosa y lluviosa. Pero tuve siempre confianza en el hombre. No perdí jamás la esperanza. Por eso tal vez he llegado hasta aquí con mi poesía, y también con mi bandera.
En conclusión, debo decir a los hombres de buena voluntad, a los trabajadores, a los poetas que el entero porvenir fue expresado en esa frase de Rimbaud: sólo con una ardiente paciencia conquistaremos la espléndida ciudad que dará luz, justicia y dignidad a todos los hombres.
Así la poesía no habrá cantado en vano.»

(Pablo Neruda, discurso Nobel, 13 de Dezembro de 1971: Hacia la ciudad espléndida)

Sunday, July 18, 2010

As elites, as massas, a excelência e a necessidade da democracia

.
«A questão da elite versus democratização é uma falsa questão que seria bom que o sistema educativo e os seus profissionais arrumassem de vez. E é uma falsa questão porque não há verdadeiras elites sem verdadeira democracia, nem verdadeira democracia sem verdadeiras elites. Sem democracia existem castas de dirigentes que concentram privilégios, mas isso não faz deles uma elite. Uma elite só o é com provas dadas. Uma elite é o grupo dos melhores, mas, para termos a certeza de que temos os melhores, temos de poder escolher de entre todos.
(...)
Em Portugal temos as elites anémicas que temos porque a nossa democracia é tão imperfeita que ainda hesitamos se devemos dar uma educação física, uma educação musical e uma educação científica decente a todas as crianças - ou reservar isso apenas para alguns - para os mais bem-comportados ou para os que têm os pais mais bem-comportados. Há quem faça essa selecção e lhe chame "promoção da excelência". Não é. É apenas uma eternização de privilégios.»

[Copiado de As elites, as massas, a excelência e a necessidade da democracia - blogue Suco, Suquinho, Sucodinho]

Era um redondo vocábulo


 Caxias - Segredo (Desenho de João Abel Manta)

Era um redondo vocábulo
(José Afonso)

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

Vídeo:
Era um redondo vocábulo

Wednesday, July 14, 2010

Un viaje poético por caminos desconocidos...

(...)
No existen caminos fáciles. De un modo general he encontrado en mi trabajo dificultades de mayor o menor grado según los países y las circunstancias particulares del contexto ambiental, que cambia en forma constante.
¿Cuáles son las ideas de carácter general que dominaron mi espíritu al final de una vida dedicada al trabajo científico?
En primer lugar pienso que la observación, la experimentación y el razonamiento, como es bien conocido son los pilares del conocimiento humano.
(...)
Se trata en realidad de un viaje poético por caminos desconocidos que tiene todas las características de una aventura apasionante.
Aparentemente en su desarrollo intervienen la imaginación, las consideraciones de carácter estético y filosófico, la observación ó el descubrimiento de analogías, el poder de síntesis, de análisis, etc. Encontrar una perspectiva, escalar caminos difíciles y desconocidos, para llegar eventualmente a un punto de vista destacado y contemplar el paisaje circundante; son posibilidades que mueven el espíritu del estudioso.
Uno percibe de pronto todas las dificultades que se presentan en un trabajo de esta naturaleza y al disfrutar de un paisaje maravilloso en algunos caminos que otros abrirán se adquieren dos virtudes irreemplazables; la humildad y el respeto por la actividad del investigador científico.

Sunday, July 11, 2010

España en el corazón


EXPLICO ALGUNAS COSAS

PREGUNTARÉIS: Y dónde están las lilas?
Y la metafísica cubierta de amapolas?
Y la lluvia que a menudo golpeaba
sus palabras llenándolas
de agujeros y pájaros?

Os voy a contar todo lo que me pasa.

Yo vivía en un barrio
de Madrid, con campanas,
con relojes, con árboles.

Desde allí se veía
el rostro seco de Castilla
como un océano de cuero.
Mi casa era llamada
la casa de las flores, porque por todas partes
estallaban geranios: era
una bella casa
con perros y chiquillos.
Raúl, te acuerdas?
Te acuerdas, Rafael?
Federico, te acuerdas
debajo de la tierra,
te acuerdas de mi casa con balcones en donde
la luz de junio ahogaba flores en tu boca?
Hermano, hermano!
Todo
eran grandes voces, sal de mercaderías,
aglomeraciones de pan palpitante,
mercados de mi barrio de Argüelles con su estatua
como un tintero pálido entre las merluzas:
el aceite llegaba a las cucharas,
un profundo latido
de pies y manos llenaba las calles,
metros, litros, esencia
aguda de la vida,
pescados hacinados,
contextura de techos con sol frío en el cual
la flecha se fatiga,
delirante marfil fino de las patatas,
tomates repetidos hasta el mar.

Y una mañana todo estaba ardiendo
y una mañana las hogueras
salían de la tierra
devorando seres,
y desde entonces fuego,
pólvora desde entonces,
y desde entonces sangre.
Bandidos con aviones y con moros,
bandidos con sortijas y duquesas,
bandidos con frailes negros bendiciendo
venían por el cielo a matar niños,
y por las calles la sangre de los niños
corría simplemente, como sangre de niños.

Chacales que el chacal rechazaría,
piedras que el cardo seco mordería escupiendo,
víboras que las víboras odiaran!

Frente a vosotros he visto la sangre
de España levantarse
para ahogaros en una sola ola
de orgullo y de cuchillos!

Generales
traidores:
mirad mi casa muerta,
mirad España rota:
pero de cada casa muerta sale metal ardiendo
en vez de flores,
pero de cada hueco de España
sale España,
pero de cada niño muerto sale un fusil con ojos,
pero de cada crimen nacen balas
que os hallarán un día el sitio
del corazón.

Preguntaréis por qué su poesía
no nos habla del sueño, de las hojas,
de los grandes volcanes de su país natal?

Venid a ver la sangre por las calles,
venid a ver
la sangre por las calles,
venid a ver la sangre
por las calles!

(Pablo Neruda)

Video:
Explico Algunas Cosas, Pablo Neruda

España en el corazón - Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes
España en el corazón (Wikipedia)

Saturday, July 10, 2010

Trinta anos sem Vinícius

Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vídeo:
Soneto da Separação (Vinícius de Moraes)

Monday, July 05, 2010

... a voz da terra ansiando pelo mar...

SEXTO / D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

(Fernando Pessoa)

Thursday, July 01, 2010

Inéditos de Economia Matemática (de Bento de Jesus Caraça)


«Reúnem-se neste volume alguns textos inéditos de Bento de Jesus Caraça que se situam no cruzamento dos interesses intelectuais com os da vida académica e profissional do seu autor. Com organização e um estudo introdutório de Carlos Bastien, revela-se aqui uma faceta porventura menos conhecida de Bento de Jesus Caraça. Revelando rigor e intuito pedagógico, este livro interessará de igual forma a economistas e matemáticos.»

Mais textos sobre Bento de Jesus Caraça

Sunday, June 27, 2010

Ne le demandez pas aux académiciens...

Le paysan de Paris chante

I

Comme on laisse à l'enfant pour qu'il reste tranquille
Des objets sans valeur traînant sur le parquet
Peut-être devinant quel alcool me manquait
Le hasard m'a jeté des photos de ma ville
Les arbres de Paris ses boulevards ses quais

Il a le front chargé d'un acteur qu'on défarde
Il a cet oeil hagard des gens levés trop tôt
C'est pourtant mon Paris sur ces vieilles photos
Mais ce sont les fusils des soldats de la Garde
Si comme ces jours-ci la rue est sans auto

L'air que siffle un passant vers soixante dut plaire
Sous les fers des chevaux les pavés sont polis
Un immeuble m'émeut que j'ai vu demolí
Cet homme qui s'en va n'est-ce pas Baudelaire
Ce luxe flambant neuf la rue de Rivoli

J'aime m'imaginer le temps des crinolines
Le Louvre étant fermé du côté Tuileries
Par un château chantant dans le soir des soieries
Les lustres brillaient trop à minuit pour le spleen
Le spleen a la couleur des bleus d'imprimerie

Il se fait un silence à la fin des quadrilles
Paris rêve et qui sait quels rêves sont les siens
Ne le demandez pas aux académiciens
Le secret de Paris n'est pas au bal Mabille
Et pas plus qu'à la cour au conseil des Anciens

Paris rêve et jamais il n'est plus redoutable
Plus orageux jamais que muet mais rêvant
De ce rêve des ponts sous leurs arches de vent
De ce rêve aux yeux blancs qu'on voit aux dieux des fables
De ce rêve mouvant dans les yeux des vivants

Paris rêve et de quoi rêve-t-il à cette heure
Quelle ombre traîne-t-il sur sa lumière entée
Il a des revenants pis qu'un château hanté
Et comme à ce lion qui rêve du dompteur
Le rêve est une terre à ce nouvel Antée

Paris s'éveille et c'est le peuple de l'aurore
Qui descend du fond des faubourgs à pas brumeux
Il semblent ignorer ce qui déjà les meut
L'air a lavé déjà leurs grands fronts incolores
Des songes mal peignés y pâlissent comme eux

Qui n'a pas vu le jour se lever sur la Seine
Ignore ce que c'est que ce déchirement
Quand prise sur le fait la nuit qui se dément
Se défend se défait les yeux rouges obscène
Et Notre-Dame sort des eaux comme un aimant

Qu'importe qu'aujourd'hui soit le Second Empire
Et que ce soit Paris plutôt que n'importe où
Tous les petits matins ont une même toux
Et toujours l'échafaud vaguement y respire
C'est une aube sans premier métro voilà tout

Toute aube est pour quelqu'un la peine capitale
A vivre condamné que le sommeil trompa
Et la réalité trace avec son compass
Ce triste trait de craie à l'orient des Halles
Les contes ténébreux ne le dépassent pas

Paris s'éveille et moi pour retrouver ces myths
Qui nous brûlaient le sang dans notre obscurité
Je mettrai dans mes mains mon visage irrité
Que renaisse le chant que les oiseaux imitent
Et qui répond Paris quand on dit liberté

(Louis Aragon)

«Réfugié à Nice avant de passer dans la clandestinité, en 1942, le poète Louis Aragon tente de se remémorer à travers son poème "Le paysan de Paris chante" le Paris dont il est alors séparé par la ligne de démarcation...»

Thursday, June 24, 2010

Demandez-vous belle jeunesse...

Jaurès

Ils étaient usés à quinze ans
Ils finissaient en débutant
Les douze mois s'appelaient décembre
Quelle vie ont eu nos grands-parents
Entre l'absinthe et les grand-messes
Ils étaient vieux avant que d'être
Quinze heures par jour le corps en laisse
Laisse au visage un teint de cendre
Oui, notre Monsieur oui notre bon Maître
Pourquoi ont-ils tué Jaurès?
Pourquoi ont-ils tué Jaurès?

On ne peut pas dire qu'ils furent esclaves
De là à dire qu'ils ont vécu
Lorsque l'on part aussi vaincu
C'est dur de sortir de l'enclave
Et pourtant l'espoir fleurissait
Dans les rêves qui montaient aux yeux
Des quelques ceux qui refusaient
De ramper jusqu'à la vieillesse
Oui notre bon Maître oui notre Monsieur
Pourquoi ont-ils tué Jaurès?
Pourquoi ont-ils tué Jaurès?

Si par malheur ils survivaient
C'était pour partir à la guerre
C'était pour finir à la guerre
Aux ordres de quelques sabreurs
Qui exigeaient du bout des lèvres
Qu'ils aillent ouvrir au champ d'horreur
Leurs vingt ans qui n'avaient pu naître
Et ils mouraient à pleine peur
Tout miséreux oui notre bon Maître
Couvert de prêtres oui notre Monsieur

Tuesday, June 22, 2010

Outra patente no Reino Unido / Another United Kingdom Patent

Excerto do texto da patente:
«As means of introducing the key aspects covered by this invention consider Microsoft Corporation’s computer-based puzzle game Tetravex and the mathematical work of Jorge Rezende, University of Lisbon.(...)The mathematical work of Jorge Rezende has been published in the papers entitled “On the Puzzles with Polyhedra and Numbers” and “Puzzles with Polyhedra and Permutation Groups”, available via the web site of the Mathematical Group of the University of Lisbon
The publications cover the mathematical methods behind using polygonal plates (tiles), with numerical indicia ascríbed to each edge, to form the surface of regular polyhedron. Although the analysis is very detailed and covers a method (effectively a search based routine) that determines how many solutions a particular indicia set can produce, i.e. how many different ways the tiles can be arranged to form the surface of the polyhedron by matching adjacent indicia of different tiles, there is no discussion on limiting the allocation of the indicia to ensure an unique solution.»

See also:
espacenet
Aqui: espacenet

Monday, June 21, 2010

Sunday, June 20, 2010

Discurso Nobel de José Saramago


O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira." Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?" Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tijela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava : "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não podería significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.
(...)
[Leitura integral aqui]